terça-feira, 3 de março de 2015

Do meu amor perfeito

* Art: Antoine De Villiers

Do meu amor perfeito, flor ausente,

não lembro o rosto nem a voz:

lembro a fadiga sorridente

que havia, ao fim, em cada um de nós.



David Mourão-Ferreira

O teu amor absoluto

* art: Eugene Ciurana

O teu amor absoluto
é como a hera que envolve as paredes da casa.
Quero ser a casa
e que arranhes a cal da minha pele
e te aninhes nos meus ouvidos fendas
e perturbes a porta minha boca.
E por fim
procures o perigo das janelas
e enfrentes os meus olhos
infinitos de mágoa
noite e assombração.
.
Rosa Lobato de Faria

domingo, 27 de julho de 2014

E sou uma lua desvairada


Quero ser uma asa demorada
Prolongar-me no teu beijo cincunflexo,
no teu voo sempre ausente
de pássaro em queda

E bico-te os dedos lentos
E engulo-te o sexo cansado
enquanto as mãos se perdem
por entre crateras do teu sal


E sou uma lua desvairada
uma órbita torcida
desse teu corpo enviesado
desse teu astro arrevesado


” Agripina Roxo”

São preciosos registros, farelos de ouro


“Nem especialmente alegre ou triste se precisa estar.
Ocorre como os chamados movimentos autônomos do corpo.
Sem aviso me apanho cantando: “…Atestam-te os meus olhos rasos d’água a dor que a tua ausência me causou….”
São preciosos registros, farelos de ouro, retalho de pano bom.
Me levanto para guardar, botar no cofre, certamente em vão, têm natureza de nuvem, passam. Você olha, acha bonito, mas segurar não pode. Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar.”

Adélia Prado

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Lavra-me...

                                           
                                         …entra como quem morre no centro do fogo

…entra como quem arde no centro do fogo
…entra devagar no centro do fogo
e lavra-me

Alice Vieira

(Que seria de nós se nos roubassem os pontos de interrogação?


Como é que eu,
ouvindo tão mal, distingo
o teu andar desde o princípio do corredor?
Como é que eu,
vendo tão pouco, sei
que és tu chegas, conforme a luz?

Como é que eu,
de mãos tão ásperas, desenho
a tua cara mesmo tão longe dela?

Onde está
tudo o que sei de ti
sem nunca ter aprendido nada?

Serei ainda capaz
de descobrir a palavra
que larga o teu rasto na janela?
 

(Que seria de nós
se nos roubassem os pontos de interrogação?)
 

Mário Castrim
ps:
na leve ardência das artérias,onde decifras meu nome no teu.
O sangue que jorra murmura pleno de sentidos o néctar que embriaga quando penso em beijo
em boca,a tua. Pode alguém morar dentro de outro tão longe
e vagar pelo corpo através do pulsar do coração?


Som



Se um arco iris ou uma flor desabrochando fizesse som,esse seria o som do riso dela.


              A Cabana,141

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Teu corpo é casulo de infinitas sedas


Teu corpo é canoa
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.
Teu corpo é casulo
de infinitas sedas
onde fio
me afio e enfio
invasor recebido
com licores.
Teu corpo é pele exata para o meu
pena de garça
brilho de romã
aurora boreal
do longo inverno.

 Marina Colasanti 

Do sussurro da tua boca



gosto da doçura dos teus beijos…


- Cau Lanza -

Ontem a noite

*imagem: Shira Sela


.
sonhei de corpo inteiro
-acordei com teu cheiro


Alonso Alvarez

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Abstração




“Eu cativo o imaginado,
mas naquele instante podia cativar coisas tangíveis,
podia transformar o abstrato em concreto”


Fernanda Carinci

Seu corpo é todo ele feito de aves



Uma voz
ergueu-se das cavidades do Inverno,
doce e leve
como a palavra sem peso
que vinha da tua boca.
Uma voz terá assim regressado
para perturbar o canto
e
a única pergunta
que ainda se não ousava fazer
às aves da alma.
Aquele que entreabre a boca
por um instante que seja,
esse estará talvez esquecido de
que o seu corpo é todo ele feito de aves,
àrvores voadoras e constelações de fogo.
E que desta maneira e pouco a pouco
se esvaziará disso,
de tudo isso.



Yves Namur


Ceifaram-me as asas



antes de as sentir
Como
abri-las
senão imaginando?



- Casimiro de Brito -

domingo, 6 de abril de 2014

Eu não sei de outro nome para ternura




Só no sonho os meus dias se consentem
A um nome se reduz
esta ânsia de ser
presença viva do meu gesto outrora
Eu não sei de outro nome para a ternura.


Amélia Pais

Dentro dos dias

 
abraça os teus pés aos meus. muito muito. dentro dos dias há um caminho.


Kha Tembe

Primeira vez



“Cada vez é uma primeira vez.
Mas aquela foi mais primeira do que todas as outras.”
 
(Lya Luft)

sábado, 5 de abril de 2014

Luxúria

Art: Aram Nersisyan

eu não sou eu!
tenho em mim seu corpo nu.
enquanto beijas meu rosto,
possuo teu corpo
(com gosto). espia
meu êxtase e agonia,
tua pele quente
de mim vestida. eu não sou eu, sou tu.
arrepio
com o fogo vertente de teu ventre.
ouso
abusar-te em minha cama.
bebo dos teus seios
(paixão insana).
açoito
teu corpo em meu peito.
silente,
quedo entre as tuas coxas.
.
Daufen Bach

As meninas são todas como eu



As meninas são todas como eu:
a guardar astros que serão bordados,
a recolher os olhos deslumbrados
depois duma viagem pelo Céu.

E vestem blusas para esperar a tarde
que há-de surgir no fundo da vereda,
e crispam dedos de sonhar a seda
que a tarde trouxe e na cantiga arde.

Fincam braços no chão do parapeito
e debruçam o corpo para a Lua,
e temem vultos negros pela rua
e sentem fogo a iluminar-lhe o peito.

E deitam-se nas camas encantadas
e olham o luar correndo nas campinas,
e são felizes porque são meninas
e porque a vida as vai fazer mudadas.

As meninas são todas como eu fui
- Menina mais menina que existisse! -
Ninguém me disse o que para mim eu disse,
e eu inventei o que hoje se dilui...

As meninas são todas da Saudade
das tardes sós de chuva e poesia.
(Ninguém me disse o que eu a mim dizia
- minha conversa doida com a vontade!)

As meninas são todas como eu:
a guardar astros que serão bordados,
e a recolher os olhos deslumbrados
depois de uma viagem pelo Céu.

Natércia Freire

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Aquela que seja ela


Não quero uma mulher
Que seja gorda ou magra
Ou alta ou baixa
Ou isto e aquilo.
Não quero uma mulher
Mas sim um porto, uma esquina
Onde virar a vida e olhá-la
De dentro para fora.
Não espero uma mulher
Mas um barco que me navegue
Uma tempestade que me aflija
Uma sensualidade que me altere
Uma serenidade que me nine.
Não sonho uma mulher
Mas um grito de prazer
Saindo da boca pendurada
No rosto emoldurado
No corpo que se apoie
Nas pernas que me abracem.
Não sonho nem espero
Nem quero uma mulher
Mas exijo aos meus devaneios
Que encontrem a única
Que quero sonho e espero
Não uma, mas ela.
E sei onde se esconde
E conheço-lhe as senhas
Que a definem. O sexo
Ardente, a volúpia estridente
A carência do espasmo
O Amor com o dedo no gatilho.
Só quero essa mulher
Com todos seus desertos
Onde descansar a minha pele
Exausta e a minha boca sedenta
E a minha vontade faminta
E a minha urgência aflita
E a minha lágrima austera
E a minha ternura eloquente.
Sim, essa mulher que me excite
Os vinte e nove sentidos
A única a saber
O que dizer
Como fazer
Quando parar
Onde Esperar.
Essa a mulher que espero
E não espero
Que quero e não quero
Essa mulherportoesquina
Que desejo e não desejo
Que outro a tenha.
Que seja alta ou baixa
Isto ou aquilo
Mas que seja ela
Aquela que seja minha
E eu seja dela
Que seja eu e ela
Euela eu lá nela
Que sejamos ela.
E eu então terei encontrado
A mulher que não procuro
O barco, a esquina, Você.
Sim, você, que espreita
Do outro lado da esquina, no cais,
A chegada do marinheiro
Como quem apenas me espera.
Então nos amarraremos sem vergonha
À luz dos holofotes dos teus olhos,
E procriaremos gritos e gemidos
Que iluminarão todas as esquinas.
Será o momento de dizer
Achei/achamos amei/amamos
E por primeira vez vocalizar o
Somos, pluralizando-nos
Na emoção do encontro.
Essa a mulher
que não procuro
nem espero.
Você, viu? Você!


Bruno Kampel


O traje da sede


 Tu cresces sobre o solo das Estações.
És a minha fome,
o pão, o peixe e a carne
santificados pela eternidade da vida na raiz
profana das searas,
no teu corpo de oceano sem praia,
de imenso prado ondulante.
Tu vives no som cúmplice das Nascentes.
És a minha sede,
a fogueira láctea no baptismo diário do sol,
o rio perene
no silêncio dos murmulhos,
a jazida plasmada na foz das águas
bebidas sem distância.
Perco-me, procuro-me e encontro-me em ti!


João Veríssimo