domingo, 29 de outubro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

Do que não é teu


Aí, me veio a lembrança daquela rua que terminava numa escadaria por onde não passo mais.
Tive a impressão de caminhar lá contigo.
Só que nesse tempo, nem sonhava com a tua existência.
Primeiro, achei engraçado. Depois, triste.
Não é direito roubar lembranças que não são tuas. Não é.
O presente já é tão grande e tão teu.
O antes não. O antes não compartilho.

Briza
*fotografia: Anka Zhuravleva

Para iluminar o vento...



fica em silêncio
a palavra aguarda um pássaro
no teu coração

Maria Azenha.

domingo, 15 de outubro de 2017

Demente...



Inventa cada carícia…


Chico Buarque


e o coração é uma semente inventada


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.
Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder

Carícia



és a minha carícia.

Kha Tembe

Destino



isto era o destino: 
chegar à margem
e ter medo da quietude da água. 

Antonio Gamoneda


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

Acordei com vontade de lhe dar meu olhar



Quero ser uma asa demorada
Prolongar-me no teu beijo cincunflexo,
no teu voo sempre ausente
de pássaro em queda

E bico-te os dedos lentos
E engulo-te o sexo cansado
enquanto as mãos se perdem
por entre crateras do teu sal

E sou uma lua desvairada
uma órbita torcida
desse teu corpo enviesado
desse teu astro arrevesado

Agripina Roxo

E sou essa lua desvairada


Quero ser uma asa demorada
Prolongar-me no teu beijo cincunflexo,
no teu voo sempre ausente
de pássaro em queda

E bico-te os dedos lentos
E engulo-te o sexo cansado
enquanto as mãos se perdem
por entre crateras do teu sal

E sou uma lua desvairada
uma órbita torcida
desse teu corpo enviesado
desse teu astro arrevesado


Agripina Roxo

A estranha que vive em mim



Depois de todas as loucuras

repetidamente imaginadas

(deliciosamente repetidas…) ,

surge essa desconcertante sanidade

e eu encontro, deitada no seu peito,

tranquila como quem ama,

a estranha que vive em mim…


Maria Borges

domingo, 10 de setembro de 2017

Onde o vértice é água



O deslizar suave da boca até à fonte
onde o vértice é de água.


JL Garcês

O amante



Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem – e eu não protesto –
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo –
Não entendem deste luar de beijos…
– Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal –
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos –
Não faltes aos meus apelos dolorosos
– Adormenta esta dor que me domina!

Judith Teixeira

Cada vez mais...




Desaprendo chãos e aprendo asas…
Que posso fazer se meu coração voa?

Van Luchiari

sábado, 9 de setembro de 2017

Tão lua



Saiu.
A noite estava fria, mas belíssima.
Achou a lua enorme e pensou em compará-la a alguma coisa,
mas desistiu: parecia lua mesmo,
talvez nunca parecesse tão lua quanto naquela noite.

Lígia Fagundes Telles

O néctar das rosas púrpuras



Inventei uma bebida que chamei de púrpura.
É uma bebida que tem um efeito maravilhoso no corpo inteiro…
(…)
Para preparar essa bebida uso o néctar das rosas púrpuras…Nascem em pequenos buquês…
A bebida púrpura não deixa os seus gostos apenas na boca,mas em cada fibra do corpo.

(O Dia do Coringa)
Jostein Gaarder

Ávido



tenho a sede do mar – aquela de beber todos os rios
e continuar inquieto com tanto sal na saliva

Líria Porto

Difícil fotografar o silêncio



É que o silêncio faz um barulho danado em minh’alma.
“Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei.
Eu conto: Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa, eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina. O silêncio era um carregador? Estava carregando o bêbado. Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra. Fotografei a existência dela. Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre. Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça. Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal” –

Manoel de Barros

Sob os anéis dos astros



fecharia os olhos sob os anéis dos astros
e entre os violinos e os fortes poços da noite,
descobriria a ardente ideia da minha vida.

Herberto Helder